A História

Foral Manuelino de Loriga

O primeiro foral data de 1136 e foi dado por João Rhania, a quem D. Afonso Henriques tornou senhor das terras de Loriga. E o primeiro foral régio (dado directamente pelo rei) data de 1249,

portanto em 1514 Loriga já era vila e sede de concelho.


História concisa da vila de Loriga

Lorica, foi o nome dado pelos Romanos a Lobriga, povoação que foi, nos Hermínios (actual Serra da Estrela), um forte bastião lusitano contra os invasores romanos. Os Hermínios foram a maior fortaleza lusitana e Lorica situada no coração dessa fortaleza, perto do ponto mais alto. Lorica, provem do latim, correspondendo ao nome de antiga couraça guerreira, denominação que derivou em Loriga, a qual, tinha o mesmo significado. Os próprios soldados e legionários romanos usavam Lorica. Os Romanos "rebaptizaram" a população com o referido nome, devido à sua posição estratégica na serra, e ao seu protagonismo durante a guerra com os Lusitanos (LORICA LUSITANORUM CASTRUM EST). É um caso raro em Portugal de um nome que se mantém praticamente inalterado há dois mil anos, sendo altamente significativo da antiguidade e da história da povoação, por isso, a couraça é a peça central e principal do brasão histórico da vila.

A povoação foi fundada estrategicamente no alto de uma colina, entre duas ribeiras, num belo vale de origem glaciar. Desconhece-se, como é evidente, a longínqua data da sua fundação, mas sabe-se que a povoação existe há mais de dois mil e seiscentos anos, e surgiu originalmente no mesmo local onde hoje está o centro histórico da vila. No Vale de Loriga, onde a presença humana é um facto há mais de cinco mil anos, existem actualmente, além da vila, as aldeias de Cabeça, Muro, Casal do Rei e Vide.

Da época pré-romana, existe, por exemplo, uma sepultura antropomórfica com mais de dois mil anos, num local onde existiu um antigo santuário, numa época em que o nome da povoação era Lobriga, etimologia de evidente origem céltica. Lobriga, foi uma importante povoação fortificada, Celta e Lusitana, na serra.

A tradição local, e diversos documentos antigos, apontam Loriga como tendo sido o berço de Viriato, o qual terá nascido nos Hermínios onde foi pastor desde criança. É interessante a descrição existente no livro manuscrito "História da Luzitânia", do Bispo-Mor do Reino (1580):"...Sucedeu o pastor Viriato, natural de Lobriga, hoje a vila de Loriga, no cimo da Serra da Estrela, Bispado de Coimbra, ao qual, aos quarenta anos de idade, aclamarão Rey dos Luzitanos, e casou em Évora com uma nobre senhora no ano 147...". A rua principal, da área mais antiga do centro histórico da vila de Loriga, tem o nome de Viriato, em sua homenagem.

Ainda hoje existem partes da estrada, e uma das duas pontes (século I a.C.), com que os Romanos ligaram Lorica ao restante império. A ponte romana ainda existente, sobre a Ribeira de Loriga, está em bom estado de conservação, e é um bom exemplar da arquitectura da época.

A estrada romana ligava Lorica a Egitânia (Idanha-a-Velha), Talabara (Alpedrinha), Sellium (Tomar), Scallabis (Santarém), Olisipo (Lisboa) e a Longóbriga (Longroiva), Verurium (Viseu), Balatucelum (Bobadela), Conímbriga (Condeixa) e Aeminium (Coimbra). Era uma espécie de estrada estratégica destinada a ajudar a controlar os montes Hermínios onde viviam tribos lusitanas muito aguerridas.

Quando os romanos chegaram, a povoação estava dividida em dois núcleos separados por poucas centenas de metros. O maior, mais antigo e principal situava-se na área onde hoje existem a Igreja Matriz e parte da Rua de Viriato, sendo defendido por muros e paliçadas. O outro núcleo, constituído apenas por algumas habitações, situava-se mais acima junto a um pequeno promontório rochoso, em cima do qual mais tarde os Visigodos construíram uma ermida dedicada a S. Gens.

Com o domínio romano, cresceu a importância de Lorica, uma povoação castreja que recebeu populações de castros existentes noutros locais dos Hermínios e que entretanto foram abandonados. Isso aconteceu porque esses castros estavam localizados em sítios onde a única vantagem existente era a facilidade de defesa. Sítios que, ao contrário de Lorica, eram apenas um local de refúgio, onde as habitações estavam afastadas dos recursos necessários à sobrevivência, tais como água e solos aráveis. Um desses castros abandonados e cuja população se deslocou para Lorica, situava-se no ainda conhecido Monte do Castelo, ou do Castro, perto da Portela de Loriga. No século XVIII ainda eram visíveis as ruínas das fundações das habitações que ali existiram, mas actualmente no local apenas se vêem pedras soltas. A propósito, é completamente errada a ideia criada segundo a qual os Lusitanos apenas construíam as suas habitações no cimo dos montes, os quais, apenas deixaram  com a chegada dos romanos. Pelo contrário, eles sabiam escolher os melhores locais e a facilidade de defesa não era o único critério.

Loriga, foi também importante para os Visigodos, os quais deixaram uma ermida dedicada a S. Gens, um santo de origem céltica, martirizado em Arles, na Gália, no tempo do imperador Diocleciano. A ermida sofreu obras de alteração e o orago foi substituído, passando a ser de Nossa Senhora do Carmo. Com a passagem dos séculos, os loricenses passaram a conhecer o santo por S. Ginês, hoje nome de bairro neste local do actual centro histórico da vila. A actual derivação do nome romano, Loriga, começou a ser usada pelos Visigodos.

A Igreja Matriz tem, numa das portas laterais, uma pedra com inscrições visigóticas, aproveitada de um antigo pequeno templo existente no local quando da construção datada de 1233. A antiga igreja, era um templo românico com três naves, a traça exterior era semelhante à da Sé Velha de Coimbra, tinha o tecto e abóbada pintados com frescos, e, quando foi destruída pelo sismo de 1755, possuía nas paredes, quadros da escola de Grão Vasco. Da primitiva igreja românica do século XIII restam partes das paredes laterais e outra alvenaria. Desde a reconquista cristã, que Loriga pertenceu à Coroa e à Vigariaria do Padroado Real e foi o próprio rei (na época D. Sancho II) que mandou construir a Igreja Matriz, cujo orago, era, tal como hoje, de Santa Maria Maior. Na segunda metade do século XII já existia a paróquia de Loriga, que foi criada aliás pelos visigodos pertencendo então à diocese da Egitânia e, os fieis dos então poucos e pequenos lugares ou "casais" dos arredores, vinham à vila assistir aos serviços religiosos. Alguns desses lugares, hoje freguesias, foram, a partir do século XVI, adquirindo alguma autonomia religiosa, começando por Alvoco, seguindo-se Vide, Cabeça e Teixeira.

A vila de Loriga, recebeu forais de João Rhânia (senhorio das Terras de Loriga durante cerca de duas décadas, no tempo de D. Afonso Henriques) em 1136, de D. Afonso III em 1249, de D. Afonso V em 1474, e recebeu foral novo de D. Manuel I em 1514.

Com D. Afonso III, a vila recebeu o primeiro foral régio e em 1474, D.Afonso V doou Loriga ao fidalgo Álvaro Machado, herdeiro de Luís Machado, que era também senhor de Oliveira do Hospital e de Sandomil, doação confirmada em 1477, e mais tarde por D. Manuel I. No entanto, após a morte do referido fidalgo, a vila voltou definitivamente para os bens da Coroa. No século XII, o concelho de Loriga abrangia a área compreendida entre a Portela de Loriga (hoje também conhecida por Portela do Arão) e Pedras Lavradas, incluindo as áreas das actuais freguesias de Alvoco da Serra, Cabeça, Teixeira e Vide. Na primeira metade do século XIX, em 1836, o concelho de Loriga passou a incluir Valezim e Sazes da Beira. Valezim, actual aldeia histórica, recebeu foral em 1201, e o concelho foi extinto em 1836, passando a pertencer ao de Loriga. Alvoco da Serra recebeu foral em 1514 e Vide gozou de alguma autonomia no século XVII mas sem nunca ter recebido foral ou categoria de vila, mas voltaram a ser incluídas plenamente no concelho de Loriga em 1828 e 1834 respectivamente, também no início do século XIX. As sete freguesias que ocupam a área do antigo município loricense, constituem actualmente a denominada Região de Loriga. Essas freguesias constituem também a Associação de Freguesias da Serra da Estrela, com sede na vila de Loriga.

Loriga, é uma vila industrializada (têxtil) desde o início do século XIX, quando "aderiu" à chamada revolução industrial, mas, já no século XVI os loricenses produziam buréis e outros panos de lã.

Loriga, chegou a ser uma das localidades mais industrializadas da Beira Interior, e a actual sede de concelho só conseguiu ultrapassá-la em meados do século XX. Tempos houve em que só a Covilhã ultrapassava Loriga em número de empresas. Demonstrativo da genialidade dos loricenses, é que tudo isso aconteceu apesar dos acessos difíceis à vila, os quais, até à década de trinta do século XX, se resumiam à velhinha estrada romana de Lorica, construída no século I antes de Cristo. Nomes de empresas, tais como Regato, Fândega, Leitão & Irmãos, Redondinha, Tapadas, Augusto Luís Mendes, Moura Cabral, Lorimalhas, Lages Santos, Nunes Brito, etc, fazem parte da rica história industrial desta vila. A maior e principal avenida de Loriga tem o nome de Augusto Luís Mendes, o mais destacado dos antigos industriais loricenses.

Mais tarde, a metalurgia, a pastelaria e mais recentemente o turismo (Loriga tem enormes potencialidades turísticas), passaram a fazer parte dos pilares da economia da vila.

Outra prova do génio loricense é um dos ex-líbris de Loriga! Os inúmeros socalcos e a sua complexa rede de irrigação, construídos ao longo de muitas centenas de anos e que transformaram um vale belo mas rochoso, num vale fértil.

Mas, Loriga acabou por ser derrotada por um inimigo político e administrativo, local e nacional, contra o qual teve que lutar desde meados do século XIX.

A história da vila de Loriga é, aliás, um exemplo das consequências que os confrontos de uma guerra civil podem ter no futuro de uma localidade e de uma região. Loriga tinha a categoria de sede de concelho desde o século XII, mas, por ter apoiado os chamados Absolutistas contra os Liberais na guerra civil portuguesa, teve o castigo de deixar de ser sede de concelho em 1855 quando da reforma administrativa em curso. A conspiração movida por desejos expansionistas da localidade que beneficiou com o facto, precipitou os acontecimentos. Tratou-se de um grave erro político e administrativo como tem vindo a confirmar-se; foi, no mínimo, um caso de injusta vingança política, numa época em que não existia democracia e reinavam o compadrio e a corrupção, e assim começou o declínio de toda a região de Loriga (antigo concelho de Loriga).

Se nada de verdadeiramente eficaz for feito, começando pela vila de Loriga, esta região estará desertificada dentro de poucas décadas, o que, tal como em relação a outras relevantes terras históricas do interior do país, será com certeza considerado como uma vergonha nacional.

Confirmaria também a óbvia existência de graves e sucessivos erros nas políticas de coesão administração e ordenamento do território, para não dizer inexistência. Para evitar tal situação vergonhosa para o país, é necessário no mínimo pôr em prática o que já é reconhecido no papel: desenvolver a vila de Loriga, pólo e centro da região. Infelizmente constata-se que os políticos não mudaram desde o século XIX nem aprenderam com os erros, como se confirmou com a "reforma" de 2013.

Em Loriga existe a única estância e pistas de esqui existentes em Portugal. 

Loriga é a capital da neve em Portugal.

Loriga é conhecida como a Suiça Portuguesa

VIAS ROMANAS EM PORTUGAL - Vestígios Romanos Georreferenciados em Loriga

O nome Lorica aparece como sendo da época romana num documento medieval visigótico com referências à zona. Foi aliás na época visigótica que a "versão" Loriga começou a substituir o nome Lorica que vinha da época romana, mas o nome original dado pelos romanos só caiu totalmente em desuso durante a primeira metade do século XIII.

Depois, aparece novamente em documentos dos séculos X, XI, XII e XIII, principalmente em documentos do século XII, inclusive quando se fala de limites territoriais, onde até a actual Portela do Arão é referida como Portela de Lorica, começando mais tarde a ser referida como Portela de Aran, depois de Aarão, e finalmente do Arão.

A estrada romana de Lorica era uma espécie de estrada estratégica, destinada a ajudar a controlar os Montes Hermínios onde, como se sabe, viviam tribos lusitanas muito aguerridas. Esta estrada ligava entre si duas grandes vias transversais, a que ligava Conímbriga, a norte, e a que ligava Laegitania, a sul. Não se sabe os locais exactos dos cruzamentos, mas tudo indica que a norte seria algures perto da actual Bobadela.

Quanto aos vestígios da calçada romana original, eles podem encontrar-se na área das Calçadas, onde estiveram na origem deste nome, e dispersos em pequenos vestígios até à zona da Portela do Arão, tratando-se da mesma estrada.

A título de curiosidade a estrada romana foi utilizada desde que foi construída, provavelmente por volta de finais do século I antes de Cristo, até à década de trinta do século XX quando entrou em funcionamento a actual EN231. Sem a estrada romana teria sido impossível o já por si grande feito de Loriga se tornar um dos maiores pólos industriais têxteis da Beira Interior durante o século XIX.

Factos comprovados: Lorica era o antigo nome de Loriga. Existiram duas pontes romanas, uma delas ainda existe, e a outra, construída sobre a Ribeira de S. Bento, ruiu no século XVI e ambas faziam parte da estrada romana que ligava a povoação ao restante império romano.

A ponte romana que ruiu estava situada a poucas dezenas de metros a jusante da actual ponte, também construída em pedra mas datada de finais do século XIX. A antiga estrada romana descia pela actual Rua do Porto, subia pela actual Rua do Vinhô, apanhava parte da actual Rua de Viriato passando ao lado da povoação então existente, subia pelas actuais ruas Gago Coutinho e Sacadura Cabral, passava na actual Avenida Augusto Luís Mendes, na área conhecida por Carreira, seguindo pela actual Rua do Teixeiro em direcção à ponte romana sobre a Ribeira de Loriga, também conhecida por Ribeira da Nave e Ribeira das Courelas.

Entre a capela de S. Sebastião e o cemitério, existia um troço de calçada romana bem conservada que não deixava dúvidas a ninguém sobre a sua verdadeira origem, mas infelizmente uma parte foi destruída e a restante soterrada quando fizeram a estrada entre a Rua do Porto e o cemitério.

O património histórico nunca foi estimado em Loriga...

Numa zona propositadamente conhecida por Calçadas, já afastada da vila, ainda existem vestígios bem conservados do primitivo pavimento da estrada romana.


Fonte: António Conde - História de Loriga - Extratos da obra de António Conde, "História concisa da vila de Loriga - Das origens à extinção do município"

Apontamento conciso sobre a história da vila de Loriga

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